Resumo teórico do sonambulismo, do êxtase e da dupla vista

1 nov

Resumo teórico do sonambulismo, do êxtase e da dupla vista

 

Livro : O Livro dos EspíritosParte 2ª – Cap. VIIIDa Emancipação da Alma

 

SONAMBULISMO

 

455 Os fenômenos do sonambulismo natural se produzem espontaneamente e são independentes de toda causa exterior conhecida.

Contudo, o organismo físico de algumas pessoas pode ser especialmente dotado para isso e os fenômenos podem, então, ser provocados artificialmente, por um magnetizador.

O estado designado sob o nome de sonambulismo magnético só difere do sonambulismo natural porque é provocado, enquanto o outro é espontâneo.

 

O sonambulismo natural é um fato notório que ninguém mais põe em dúvida, apesar do aspecto maravilhoso dos seus fenômenos.

O que tem, então, de mais extraordinário ou de mais irracional o sonambulismo magnético? Apenas por ser produzido artificialmente, como tantas outras coisas?

 

Os charlatães, dizem, o têm explorado. Eis uma razão a mais para não o deixar nas mãos deles.

Quando a ciência o tomar para si, admitindo-o, o charlatanismo terá bem menos crédito sobre as massas.

 

Contudo, enquanto isso não acontece, o sonambulismo natural ou artificial é um fato, e como contra fatos não há argumentos, se propaga, apesar da má vontade de alguns, e isso até mesmo na ciência, onde penetra por uma infinidade de pequenas portas em vez de ser aceito pela porta da frente.

Quando estiver plenamente firmado lá, será preciso conceder-lhe direito de cidadania.

 

Para o Espiritismo, o sonambulismo é mais que um fenômeno fisiológico, é uma luz lançada sobre a psicologia;

é aí que se pode estudar a alma, porque ela se mostra descoberta.

 

Ora, um dos fenômenos pelos quais a alma ou Espírito se caracteriza é a clarividência, independentemente dos órgãos ordinários da vista.

 

Clarividência : É a faculdade pela qual a pessoa vê os Espíritos com grande clareza.  (Estudando a Mediunidade – Martins Peralva).

 

Os olhos e os ouvidos materiais estão para a vidência e para a audição como os óculos para os olhos e o ampliador de sons para os ouvidos – simples aparelhos de complementação.

Toda a percepção é mental.

 

Surdos e cegos na experiência física, convenientemente educados, podem ouvir e ver, através de recursos diferentes daqueles que são vulgarmente utilizados.

A onda hertziana e os raios X vão ensinando aos homens que há som e luz muito além das acanhadas fronteiras vibratórias em que eles se agitam, e o médium é sempre alguém dotado de possibilidades neuropsíquicas especiais que lhe estendem o horizonte dos sentidos. (Nos Domínios da Mediunidade – André  Luiz).

 

Os que contestam esse fato se apoiam no argumento de que o sonâmbulo nem sempre vê como se vê pelos olhos e nem sempre vê conforme a vontade do experimentador. É natural. E devemos nos surpreender que, sendo os meios diferentes, os efeitos não sejam os mesmos?

 

É racional querer efeitos idênticos quando o instrumento não existe mais?

A alma tem suas propriedades assim como o olho tem as suas;

é preciso julgá-las em si mesmas e não por comparação.

 

A causa da clarividência tanto no sonambulismo magnético quanto no natural é a mesma:

é um atributo da alma, uma faculdade inerente a todas as partes do ser incorpóreo que está em nós e cujos limites são os mesmos da própria alma.

 

O sonâmbulo vê todos os lugares aonde sua alma possa se transportar, seja qual for a distância.

 

Na visão à distância, o sonâmbulo não vê as coisas do lugar em que está seu corpo e sim como por um efeito telescópico.

Ele as vê presentes e como se estivesse no lugar onde elas existem, visto que sua alma lá está em realidade.

É por isso que seu corpo fica como se estivesse aniquilado e parece privado de sensações até o momento em que a alma vem retomá-lo.

 

Essa separação parcial da alma e do corpo é um estado anormal que pode ter uma duração mais ou menos longa, mas não indefinida;

é a causa do cansaço que o corpo sente após um certo tempo, principalmente quando a alma se entrega a um trabalho ativo.

 

O órgão da visão na alma ou Espírito não é circunscrito e não tem um lugar determinado, como no corpo físico, o que explica por que os sonâmbulos não podem lhe assinalar um órgão especial.

 

Eles veem porque veem, sem saber como ou por que, pois para eles, como Espíritos, a vista não tem sede própria.

Ao se reportarem ao seu corpo, essa sede lhes parece estar nos centros onde a atividade vital é maior, principalmente no cérebro, na região epigástrica, ou no órgão que, para eles, é o ponto de ligação mais intenso entre o Espírito e o corpo.

 

Epigástrica: referente à parte superior e central do abdome (N. E.).

 

O poder da lucidez sonambúlica não é ilimitado.

O Espírito, mesmo completamente liberto do corpo, está limitado em suas faculdades e conhecimentos de acordo com o grau de perfeição que atingiu, e mais ainda por estar ligado à matéria da qual sofre influência.

 

Por causa disso é que a clarividência sonambúlica não é comum, nem infalível.

Muito menos se pode contar com sua infalibilidade quanto mais se desviado objetivo proposto pela natureza e quanto mais se faz dela objeto de curiosidade e experimentação.

 

No estado de desprendimento em que se encontra, o Espírito do sonâmbulo entra em comunicação mais fácil com outros Espíritos encarnados ou não encarnados;

essa comunicação se estabelece pelo contato dos fluidos que compõem os perispíritos e servem de transmissão para o pensamento, como o fio na eletricidade.

 

Jó  33  : 14  – 18

14  Pelo contrário, Deus fala de um modo, sim, de dois modos, mas o homem não atenta para isso.

15  Em sonho ou em visão de noite, quando cai sono profundo sobre os homens, quando adormecem na cama,

16  então, lhes abre os ouvidos e lhes sela a sua instrução,

17  para apartar o homem do seu desígnio e livrá-lo da soberba;

18  para guardar a sua alma da cova e a sua vida de passar pela espada.

 

O sonâmbulo não tem, portanto, necessidade de que o pensamento seja articulado pela fala: ele o sente e adivinha, é o que o torna extremamente impressionável às influências da atmosfera moral em que está.

 

É também por isso que uma assistência numerosa de espectadores, e principalmente de curiosos mal-intencionados, prejudica o desenvolvimento dessas faculdades, que se recolhem, por assim dizer, em si mesmas, e não se desdobram com toda a liberdade como numa reunião íntima e num meio simpático.

A presença de pessoas mal-intencionadas ou antipáticas produz sobre o sonâmbulo o efeito do contato da mão sobre a planta sensitiva.

Sensitiva: planta também conhecida como dormideira, que se fecha ao contato com a mão (N. E.).

 

O sonâmbulo vê às vezes seu próprio Espírito e seu próprio corpo;

são, por assim dizer, dois seres que lhe representam a dupla existência, espiritual e corporal, e entretanto se confundem pelos laços que os unem.

 

Nem sempre o sonâmbulo se dá conta dessa situação e essa dualidade faz com que muitas vezes fale de si como se falasse de outra pessoa;

é que, às vezes, é o ser corporal que fala ao espiritual e, outras, é o ser espiritual que fala ao corporal.

 

O Espírito adquire um acréscimo de conhecimento e experiência a cada uma de suas existências corporais.

Ele os esquece em parte, durante sua encarnação numa matéria muito grosseira, mas sempre se lembra disso como Espírito.

 

É por isso que certos sonâmbulos revelam conhecimentos além da instrução que possuem e até mesmo superiores às suas aparentes capacidades intelectuais.

A inferioridade intelectual e científica do sonâmbulo quando acordado não interfere, portanto, em nada nos conhecimentos que pode revelar.

 

De acordo com as circunstâncias e o objetivo a que se proponha, pode tirá-las de sua própria experiência, na clarividência das coisas presentes ou do conselho que recebe de outros Espíritos, ou ainda do seu próprio Espírito, que, podendo ser mais ou menos avançado, pode então dizer coisas mais ou menos certas.

 

Pelos fenômenos do sonambulismo, tanto o natural quanto o magnético, a Providência nos dá a prova irrecusável da existência e independência da alma e nos faz assistir ao espetáculo sublime da liberdade que ela tem;

assim, nos abre o livro de nossa destinação.

 

Quando o sonâmbulo descreve o que se passa à distância, é evidente que ele vê, mas não pelos olhos do corpo;

vê a si mesmo e sente-se transportado para lá;

há, portanto, naquele lugar algo dele, e esse algo, não sendo seu corpo, só pode ser sua alma ou Espírito.

 

Enquanto o homem se perde nas sutilezas de uma metafísica abstrata e incompreensível para pesquisar as causas de nossa existência moral, Deus coloca diariamente ao alcance de nossos olhos e nossas mãos os meios mais simples e evidentes para o estudo da psicologia experimental.

 

 

ÊXTASE

 

O êxtase é o estado em que a independência da alma e do corpo se manifesta de maneira mais sensível e torna-se de certo modo palpável.

 

No sonho e no sonambulismo, a alma percorre os mundos terrestres.

No êxtase, penetra num mundo desconhecido, dos Espíritos etéreos, com os quais entra em comunicação, sem, entretanto, ultrapassar certos limites que não teria como transpor sem romper totalmente os laços que a ligam ao corpo.

 

Eclesiastes  12  :  6  –  7

antes que se rompa o fio de prata, e se despedace o copo de ouro, e se quebre o cântaro junto à  fonte, e se desfaça a roda junto ao poço,

     7  e o pó volte à terra, como o era, e o espírito volte a Deus, que o deu.

 

Sente-se num estado resplandecente completamente novo que a circunda, harmonias desconhecidas na Terra a arrebatam, um bem-estar indefinível a envolve.

A alma desfruta por antecipação da beatitude celeste e pode-se dizer que põe um pé sobre o limiar da eternidade.

 

Atos   10  :  9  –  16 ;   19  –  20

9  No dia seguinte, indo eles de caminho e estando já perto da cidade, subiu Pedro ao eirado, por volta da hora sexta, a fim de orar.

10  Estando com fome, quis comer; mas, enquanto lhe preparavam a comida, sobreveio-lhe um êxtase;

11  então, viu o céu aberto e descendo um objeto como se fosse um grande lençol, o qual era baixado à terra pelas quatro pontas,

12  contendo toda sorte de quadrúpedes, répteis da terra e aves do céu.

13  E ouviu-se uma voz que se dirigia a ele: Levanta-te, Pedro! Mata e come.

14  Mas Pedro replicou: De modo nenhum, Senhor! Porque jamais comi coisa alguma comum e imunda.

15  Segunda vez, a voz lhe falou: Ao que Deus purificou não consideres comum.

16  Sucedeu isto por três vezes, e, logo, aquele objeto foi recolhido ao céu.

19  Enquanto meditava Pedro acerca da visão, disse-lhe o Espírito: Estão aí dois homens que te procuram;

20  levanta-te, pois, desce e vai com eles, nada duvidando; porque eu os enviei.

 

Atos  10  :  27  –  28

27  Falando com ele, entrou, encontrando muitos reunidos ali,

28  a quem se dirigiu, dizendo: Vós bem sabeis que é proibido a um judeu ajuntar-se ou mesmo aproximar-se a alguém de outra raça;

mas Deus me demonstrou que a nenhum homem considerasse comum ou imundo;

 

Atos  10  :  34  – 35  (explicação)

34  Então, falou Pedro, dizendo: Reconheço, por verdade, que Deus não faz acepção de pessoas;

35  pelo contrário, em qualquer nação, aquele que o teme e faz o que é justo lhe é aceitável.

 

No estado de êxtase o aniquilamento do corpo é quase completo;

tem apenas, por assim dizer, a vida orgânica e sente que a alma está a ele ligado apenas por um fio que um pequeno esforço extra faria romper para sempre.

 

Nesse estado, todos os pensamentos terrestres desaparecem para dar lugar ao sentimento puro, que é a própria essência de nosso ser imaterial.

Inteiramente envolto nessa contemplação sublime, o extático encara a vida apenas como uma paragem momentânea.

Para ele tanto o bem quanto o mal, as alegrias grosseiras e misérias aqui da Terra são apenas incidentes fúteis de uma viagem cujo término que avista o deixa feliz.

 

Os extáticos são como os sonâmbulos: sua lucidez pode ser mais ou menos perfeita e seu próprio Espírito, conforme for mais ou menos elevado, estará também igualmente apto a conhecer e compreender as coisas.

 

Há neles, algumas vezes, mais exaltação do que verdadeira lucidez ou, melhor dizendo, sua exaltação prejudica sua lucidez.

É por isso que suas revelações são frequentemente uma mistura de verdades e erros, de coisas sublimes e absurdas ou até mesmo ridículas.

 

Os Espíritos inferiores se aproveitam, frequentemente, dessa exaltação, que é sempre uma causa de fraqueza quando não se sabe reprimi-la, para dominar o extático, e se fazem passar aos seus olhos com aparências que o prendem às ideias e preconceitos que têm quando acordado.

 

Isso representa uma dificuldade e um perigo, mas nem todos são assim;

cabe a nós julgar friamente e pesar suas revelações na balança da razão.

 

 

DUPLA VISTA

 

A emancipação da alma se manifesta às vezes no estado de vigília e produz o fenômeno conhecido como dupla vista ou segunda vista, que dá àqueles que dela são dotados a faculdade de ver, ouvir e sentir além dos limites de nossos sentidos.

Eles percebem coisas distantes em todas as partes onde a alma estenda sua ação;

eles as veem, por assim dizer, pela visão ordinária e por uma espécie de miragem.

 

Mateus  21 : 1 – 7 (referente a Zacarias 9 : 9 – 10)

Quando se aproximaram de Jerusalém e chegaram a Betfagé, ao monte das Oliveiras, enviou Jesus dois discípulos, dizendo-lhes:

Ide à aldeia que aí está diante de vós e logo achareis presa uma jumenta e, com ela, um jumentinho. Desprendei-a e trazei-mos.

E, se alguém vos disser alguma coisa, respondei-lhe que o Senhor precisa deles. E logo os enviará.

Ora, isto aconteceu para se cumprir o que foi dito por intermédio do profeta:

Dizei à filha de Sião: Eis aí te vem o teu Rei, humilde, montado em jumento, num jumentinho, cria de animal de carga.

Indo os discípulos e tendo feito como Jesus lhes ordenara,

trouxeram a jumenta e o jumentinho. Então, puseram em cima deles as suas vestes, e sobre elas Jesus montou.

 

Lucas  5  : 1  –  7

Aconteceu que, ao apertá-lo a multidão para ouvir a palavra de Deus, estava ele junto ao lago de Genesaré;

e viu dois barcos junto à praia do lago; mas os pescadores, havendo desembarcado, lavavam as redes.

Entrando em um dos barcos, que era o de Simão, pediu-lhe que o afastasse um pouco da praia; e, assentando-se, ensinava do barco as multidões.

Quando acabou de falar, disse a Simão: Faze-te ao largo, e lançai as vossas redes para pescar.

Respondeu-lhe Simão: Mestre, havendo trabalhado toda a noite, nada apanhamos, mas sob a tua palavra lançarei as redes.

Isto fazendo, apanharam grande quantidade de peixes; e rompiam-se-lhes as redes.

Então, fizeram sinais aos companheiros do outro barco, para que fossem ajudá-los. E foram e encheram ambos os barcos, a ponto de quase irem a pique.

 

No momento em que se produz o fenômeno da dupla vista, o estado físico do indivíduo é sensivelmente modificado;

o olhar tem algo de vago: olha sem ver;

a fisionomia toda reflete um ar de exaltação.

Constata-se que os órgãos da vista ficam alheios ao processo porque a visão persiste, apesar dos olhos fechados.

Essa faculdade parece, para aqueles que dela desfrutam, tão natural como a de ver;

é para eles uma propriedade normal do seu ser e não lhes parece excepcional.

O esquecimento se segue em geral a essa lucidez passageira da qual a lembrança, cada vez mais vaga, acaba por desaparecer como a de um sonho.

 

O poder da dupla vista varia desde a sensação confusa até a percepção clara e nítida das coisas presentes ou ausentes.

No estado rudimentar, dá a certas pessoas o tato, a perspicácia, uma espécie de certeza em seus atos que se pode chamar de precisão do golpe de vista moral.

Um pouco mais desenvolvida, desperta os pressentimentos;

ainda mais desenvolvida, mostra os acontecimentos ocorridos ou em via de ocorrer.

 

O sonambulismo natural ou artificial, o êxtase e a dupla vista são apenas variedades ou modificações de uma mesma causa.

 

Esses fenômenos, assim como os sonhos, estão na lei da natureza;

eis por que existiram desde todos os tempos.

 

A história nos mostra que foram conhecidos e até mesmo explorados desde a mais alta Antiguidade e neles está a explicação de diversos fatos que os preconceitos fizeram considerar sobrenaturais.

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