EXPLICAÇÃO DE ALGUNS FENÔMENOS CONSIDERADOS SOBRENATURAIS

29 nov

II. EXPLICAÇÃO DE ALGUNS FENÔMENOS CONSIDERADOS SOBRENATURAIS

 

Livro : A GÊNESECap. XIVOs Fluidos

 

Vista espiritual ou psíquica.

Dupla vista.

Sonambulismo.

Sonhos

 

22. – O perispírito é o traço de união entre a vida corpórea e a vida espiritual.

É por seu intermédio que o Espírito encarnado se acha em relação contínua com os desencarnados;

é, em suma, por seu intermédio, que se operam no homem fenômenos especiais, cuja causa fundamental não se encontra na matéria tangível e que, por essa razão, parecem sobrenaturais.

 

É nas propriedades e nas irradiações do fluido perispirítico que se tem de procurar a causa da dupla vista, ou vista espiritual, a que também se pode chamar vista psíquica, da qual muitas pessoas são dotadas, frequentemente a seu mau grado, assim como da vista sonambúlica.

 

O perispírito é o órgão sensitivo do Espírito, por meio do qual este percebe coisas espirituais que escapam aos sentidos corpóreos.

 

Pelos órgãos do corpo, a visão, a audição e as diversas sensações são localizadas e limitadas à percepção das coisas materiais;

pelo sentido espiritual, ou psíquico, elas se generalizam, o Espírito vê, ouve e sente, por todo o seu ser, tudo o que se encontra na esfera de irradiação do seu fluido perispirítico.

 

No homem, tais fenômenos constituem a manifestação da vida espiritual;

é a alma a atuar fora do organismo.

 

Na dupla vista ou percepção pelo sentido psíquico, ele não vê com os olhos do corpo, embora, muitas vezes, por hábito, dirija o olhar para o ponto que lhe chama a atenção.

 

Vê com os olhos da alma e a prova está em que vê perfeitamente bem com os olhos fechados e vê o que está muito além do alcance do raio visual.

Lê o pensamento figurado no raio fluídico (nº 15). (1)

(1) Fatos de dupla vista e lucidez sonambúlica relatados na Revista Espírita: janeiro de 1858, pág. 25; novembro de 1858, pág. 313; julho de 1861, pág. 193; novembro de 1865, pág. 352.

 

23. – Embora, durante a vida, o Espírito se encontre preso ao corpo pelo perispírito, não se lhe acha tão escravizado, que não possa alongar a cadeia que o prende e transportar-se a um ponto distante, quer sobre a Terra, quer do espaço.

Repugna ao Espírito estar ligado ao corpo, porque a sua vida normal é a de liberdade e a vida corporal é a do servo preso à gleba.

 

Ele, por conseguinte, se sente feliz em deixar o corpo, como o pássaro em se encontrar fora da gaiola, pelo que aproveita todas as ocasiões que se lhe oferecem para dela se escapar, de todos os instantes em que a sua presença não é necessária à vida de relação.

 

Tem-se então o fenômeno a que se dá o nome de emancipação da alma, fenômeno que se produz sempre durante o sono.

De todas as vezes que o corpo repousa, que os sentidos ficam inativos, o Espírito se desprende. (O Livro dos Espíritos, Parte 2ª, Cap. VIII.)

 

Nesses momentos ele vive da vida espiritual, enquanto que o corpo vive apenas da vida vegetativa;

acha-se, em parte, no estado em que se achará após a morte: percorre o espaço, confabula com os amigos e outros Espíritos, livres ou encarnados também.

 

O laço fluídico que o prende ao corpo só por ocasião da morte se rompe definitivamente;

a separação completa somente se dá por efeito da extinção absoluta da atividade vital.

 

Eclesiastes  12 : 6  –  7

6  antes que se rompa o fio de prata, e se despedace o copo de ouro, e se quebre o cântaro junto à fonte, e se desfaça a roda junto ao poço,

e o pó volte à terra, como o era, e o espírito volte a Deus, que o deu.

 

Enquanto o corpo vive, o Espírito, a qualquer distância que esteja, é instantaneamente chamado à sua prisão, desde que a sua presença aí se torne necessária.

Ele, então, retoma o curso da vida exterior de relação.

 

Por vezes, ao despertar, conserva das suas peregrinações uma lembrança, uma imagem mais ou menos precisa, que constitui o sonho.

Quando nada, traz delas intuições que lhe sugerem ideias e pensamentos novos e justificam o provérbio: A noite é boa conselheira.

 

Jó   33  : 14  –  18

14  Pelo contrário, Deus fala de um modo, sim, de dois modos, mas o homem não atenta para isso.

15  Em sonho ou em visão de noite, quando cai sono profundo sobre os homens, quando adormecem na cama,

16  então, lhes abre os ouvidos e lhes sela a sua instrução,

17  para apartar o homem do seu desígnio e livrá-lo da soberba;

18  para guardar a sua alma da cova e a sua vida de passar pela espada.

 

Assim igualmente se explicam certos fenômenos característicos do sonambulismo natural e magnético, da catalepsia, da letargia, do êxtase, etc., e que mais não são do que manifestações da vida espiritual. (1)

(1) Casos de letargia e de catalepsia: Revista Espírita: “Senhora Schwabenhaus”, setembro de 1858, pág. 255; – “A jovem cataléptica da Suábia”, janeiro de 1866, pág. 18.

 

24. – Pois que a visão espiritual não se opera por meio dos olhos do corpo, segue-se que a percepção das coisas não se verifica mediante a luz ordinária: de fato, a luz material é feita para o mundo material;

para o mundo espiritual, uma luz especial existe, cuja natureza desconhecemos, porém que é, sem dúvida, uma das propriedades do fluido etéreo, adequada às percepções visuais da alma.

 

Há, portanto, luz material e luz espiritual.

A primeira emana de focos circunscritos aos corpos luminosos;

a segunda tem o seu foco em toda parte: tal a razão por que não há obstáculo para a visão espiritual, que não é embaraçada nem pela distância, nem pela opacidade da matéria, não existindo para ela a obscuridade.

 

O mundo espiritual é, pois, iluminado pela luz espiritual, que tem seus efeitos próprios, como o mundo material é iluminado pela luz solar.

 

25. – Assim, envolta no seu perispírito, a alma tem consigo o seu princípio luminoso.

Penetrando a matéria por virtude da sua essência etérea, não há, para a sua visão, corpos opacos.

 

Entretanto, a vista espiritual não é idêntica, quer em extensão, quer em penetração, para todos os Espíritos.

Somente os Espíritos puros a possuem em todo o seu poder.

 

Mateus  21  : 1  –  7  (referente a Zacarias 9  : 9  –  10)

Quando se aproximaram de Jerusalém e chegaram a Betfagé, ao monte das Oliveiras, enviou Jesus dois discípulos, dizendo-lhes:

Ide à aldeia que aí está diante de vós e logo achareis presa uma jumenta e, com ela, um jumentinho. Desprendei-a e trazei-mos.

E, se alguém vos disser alguma coisa, respondei-lhe que o Senhor precisa deles. E logo os enviará.

Ora, isto aconteceu para se cumprir o que foi dito por intermédio do profeta:

Dizei à filha de Sião: Eis aí te vem o teu Rei, humilde, montado em jumento, num jumentinho, cria de animal de carga.

Indo os discípulos e tendo feito como Jesus lhes ordenara,

trouxeram a jumenta e o jumentinho. Então, puseram em cima deles as suas vestes, e sobre elas Jesus montou.

 

Nos inferiores ela se acha enfraquecida pela relativa grosseria do perispírito, que se lhe interpõe qual nevoeiro.

Manifesta-se em diferentes graus, nos Espíritos encarnados, pelo fenômeno da segunda vista, tanto no sonambulismo natural ou magnético, quanto no estado de vigília.

 

Conforme o grau de poder da faculdade, diz-se que a lucidez é maior ou menor.

Com o auxílio dessa faculdade é que certas pessoas veem o interior do organismo humano e descrevem as causas das enfermidades.

 

26. – A vista espiritual, portanto, faculta percepções especiais que, não tendo por sede os órgãos materiais, se operam em condições muito diversas das que decorrem da vida corporal.

Efetuando-se fora do organismo, tem ela uma mobilidade que derrui (anula) todas as previsões.

Indispensável se torna estudá-la em seus efeitos e em suas causas e não assimilando-a à vista ordinária, que ela não se destina a suprir, salvo casos excepcionais, que se não poderiam tomar como regra.

 

27. – Necessariamente incompleta e imperfeita é a vista espiritual nos Espíritos encarnados e, por conseguinte, sujeita à aberrações.

Tendo por sede a própria alma, o estado desta há de influir nas percepções que aquela vista faculte.

 

Segundo o grau de desenvolvimento, as circunstâncias e o estado moral do indivíduo, pode ela dar, quer durante o sono, quer no estado de vigília:

 

a percepção de certos fatos materiais e reais, como o conhecimento de alguns que ocorram a grande distância, os detalhes descritivos de uma localidade, as causas de uma enfermidade e os remédios convenientes;

 

a percepção de coisas igualmente reais do mundo espiritual, como a presença dos Espíritos;

 

imagens fantásticas criadas pela imaginação, análogas às criações fluídicas do pensamento (veja-se, acima, o n° 14).

 

14. – Os Espíritos atuam sobre os fluidos espirituais, não manipulando-os como os homens manipulam os gases,

mas empregando o pensamento e a vontade.

Para os Espíritos, o pensamento e a vontade são o que é a mão para o homem.

 

Pelo pensamento, eles imprimem àqueles fluidos tal ou qual direção, os aglomeram, combinam ou dispersam, organizam com eles conjuntos que apresentam uma aparência, uma forma, uma coloração determinadas;

mudam-lhes as propriedades, como um químico muda a dos gases ou de outros corpos, combinando-os segundo certas leis.

É a grande oficina ou laboratório da vida espiritual.

 

Algumas vezes, essas transformações resultam de uma intenção; doutras, são produto de um pensamento inconsciente.

Basta que o Espírito pense uma coisa, para que esta se produza, como basta que modele uma ária, para que esta repercuta na atmosfera.

É assim, por exemplo, que um Espírito se faz visível a um encarnado que possua a vista psíquica, sob as aparências que tinha quando vivo na época em que o segundo o conheceu, embora haja ele tido, depois dessa época, muitas encarnações.

 

Apresenta-se com o vestuário, os sinais exteriores – enfermidades, cicatrizes, membros amputados, etc. – que tinha então.

Um decapitado se apresentará sem a cabeça. Não quer isso dizer que haja conservado essas aparências, certo que não, porquanto, como Espírito, ele não é coxo, nem maneta, nem zarolho, nem decapitado;

 

o que se dá é que, retrocedendo o seu pensamento à época em que tinha tais defeitos, seu perispírito lhes toma instantaneamente as aparências, que deixam de existir logo que o mesmo pensamento cessa de agir naquele sentido.

 

Se, pois, de uma vez ele foi negro e branco de outra, apresentar-se-á como branco ou negro, conforme a encarnação a que se refira a sua evocação e à que se transporte o seu pensamento.

 

Por análogo efeito, o pensamento do Espírito cria fluidicamente os objetos que ele esteja habituado a usar.

Um avarento manuseará ouro, um militar trará suas armas e seu uniforme, um fumante o seu cachimbo, um lavrador a sua charrua e seus bois, uma mulher velha a sua roca.

 

Para o Espírito, que é, também ele, fluídico, esses objetos fluidicos são tão reais, como o eram, no estado material, para o homem vivo;

mas, pela razão de serem criações do pensamento, a existência deles é tão fugitiva quanto a deste. (1)

(1) Revista Espírita , junho de 1859, pág. 184. – O Livro dos Médiuns, 2ª Parte, cap. VIII.”

 

Estas criações se acham sempre em relação com as disposições morais do Espírito que as gera.

 

É assim que o pensamento de pessoas fortemente imbuídas de certas crenças religiosas e com elas preocupadas lhes apresenta o inferno, suas fornalhas, suas torturas e seus demônios, tais quais essas pessoas os imaginam.

 

Ás vezes, é toda uma epopeia. Os pagãos viam o Olimpo e o Tártaro, como os cristãos veem o inferno e o paraíso.

 

Se, ao despertarem, ou ao saírem do êxtase, conservam lembrança exata de suas visões, os que as tiveram tomam-nas como realidades confirmativas de suas crenças, quando tudo não passa de produto de seus próprios pensamentos

 

Cumpre, pois, se faça uma distinção muito rigorosa nas visões extáticas, antes que se lhes dê crédito.

A tal propósito, o remédio para a excessiva credulidade é o estudo das leis que regem o mundo espiritual.

 

28. – Os sonhos propriamente ditos apresentam os três caracteres das visões acima descritas.

Às duas primeiras categorias dessas visões pertencem os sonhos de previsões, pressentimentos e avisos.

 

Na terceira, isto e, nas criações fluídicas do pensamento, é que se pode deparar com a causa de certas imagens fantásticas, que nada têm de real, com relação à vida corpórea, mas que apresentam às vezes, para o Espírito, uma realidade tal, que o corpo lhe sente o contrachoque, havendo casos em que os cabelos embranquecem sob a impressão de um sonho.

 

Podem essas criações ser provocadas:

pela exaltação das crenças;

por lembranças retrospectivas;

por gostos, desejos, paixões, temor, remorsos;

pelas preocupações habituais;

pelas necessidades do corpo, ou por um embaraço nas funções do organismo;

finalmente, por outros Espíritos, com objetivo benévolo ou maléfico, conforme a sua natureza. (1)

 

(1) Revista Espírita Junho de 1866, pág. 172; – setembro de 1866, pág. 284. – O Livro dos Espíritos, Parte 2ª, cap. VIII, nº 400.

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